Uma pessoa jovem caminha pela cidade à noite. As luzes são rápidas, vermelhas, inquietas. A rua parece se mover antes mesmo do próximo passo.
Nos pés, ela usa tênis.
Não sapatos sociais perfeitamente engraxados. Não o símbolo formal do antigo mundo dos negócios. Tênis. O tipo de calçado que ainda lembra corredores de faculdade, estágios, bicos, conversas tarde da noite, ônibus lotado, metrô, trabalhos em grupo e a liberdade de ainda não ter um título definitivo.
Mas alguma coisa mudou.
No Brasil, como em muitos outros países, os jovens de vinte e poucos anos estão atravessando uma fronteira invisível. Estão deixando a vida de estudante e entrando no mundo do trabalho. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Curitiba, Brasília, Fortaleza ou Porto Alegre, o caminho pode ser diferente, mas a sensação é parecida: um dia, seu nome deixa de estar ligado apenas a notas, amigos e potencial. Ele passa a estar ligado a prazos, clientes, dinheiro, decisões e responsabilidade.
Para gerações anteriores, virar profissional muitas vezes começava pela roupa. Terno. Gravata. Sapato social. Escritório fixo. Crachá. Uma identidade de empresa.
Para os jovens de hoje, a mudança é menos óbvia. Eles podem continuar usando tênis. Podem trabalhar de uma cafeteria, de um coworking, de uma startup, de uma empresa híbrida ou do próprio quarto. Podem construir carreira com ferramentas de IA, freelas, estágios, negócios paralelos, plataformas digitais, trabalho remoto ou pequenos empreendimentos.
O uniforme mudou, mas a pressão não desapareceu.
O tênis desta foto conta essa história.
Ele ainda é jovem, flexível, próximo do chão. Mas avança por uma cidade feita de velocidade, competição e ambição. O estudante ainda não foi embora. O profissional ainda não chegou por completo. Por um tempo, os dois vivem na mesma pessoa.
Essa é a verdadeira história dos vinte e poucos anos.
Você aprende a falar em reuniões sem perder sua própria voz. Aprende a transformar curiosidade em habilidade. Aprende que confiança não chega automaticamente com o diploma, com o primeiro contrato ou com o primeiro salário. Ela é construída enquanto você caminha.
No Brasil, essa passagem tem um peso particular. Muitos jovens entram no mercado entre estágio, CLT, PJ, informalidade, Enem, faculdade, curso técnico, aluguel caro, transporte demorado, ajuda em casa e o desejo de melhorar de vida. A vida adulta não começa de uma vez. Ela chega aos poucos, junto com boletos, escolhas e responsabilidades.
A nova geração profissional talvez não pareça com a antiga. Ela pode escolher tênis em vez de sapato social, notebook em vez de pasta, marca pessoal em vez de uma carreira linear para a vida toda. Mas o significado do passo continua o mesmo.
Tornar-se adulto no mundo do trabalho não é simplesmente se vestir de outro jeito.
É seguir em frente carregando a energia da juventude, a incerteza do futuro e a responsabilidade de se tornar alguém em quem outras pessoas possam confiar.
A cidade brilha. O caminho é rápido. O calçado ainda é tênis.
Mas a pessoa que caminha pela luz já está mudando.
Notas
Segundo a pesquisa de 2026 da Cross Marketing sobre tênis no Japão, 74,7% das pessoas entre 20 e 69 anos usam tênis pelo menos uma vez por semana. Por idade e gênero, o uso semanal ou mais frequente foi de 78,2% entre homens de vinte e poucos anos, 74,5% entre homens de trinta e poucos anos, 73,6% entre homens de quarenta e poucos anos, 69,1% entre homens de cinquenta e poucos anos e 75,5% entre homens de sessenta e poucos anos. Entre as mulheres, a taxa foi de 75,5% na faixa dos vinte e poucos anos, 78,2% na dos trinta e poucos, 80,0% na dos quarenta e poucos, 71,8% na dos cinquenta e poucos e 70,9% na dos sessenta e poucos. Especificamente entre homens de vinte e poucos anos, 42,7% disseram usar tênis quase todos os dias, enquanto 78,2% usam pelo menos uma vez por semana.
Fonte: Cross Marketing, “Sneaker Survey 2026”, pesquisa realizada de 3 a 5 de abril de 2026, n=1.100.
https://www.cross-m.co.jp/report/trend-eye/20260408sneakers

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